6 de abr de 2010

ELEIÇÕES 2010

PSOL-RS aprova financiamento privado da campanha eleitoral

Giovanni Mangia, Porto Alegre (RS)

No dia 28 de março, ocorreu a conferência eleitoral estadual do PSOL do Rio Grande do Sul. A pauta principal foram as eleições que se aproximam.

Uma conferência muito importante para sinalizar os rumos que o PSOL gaúcho percorrerá no próximo período, já que a mesma definiu o nome do candidato, política de alianças e como se dará o financiamento de campanha. A conferência reafirmou o nome do vereador Pedro Ruas para representar o partido nestas eleições, decisão que já havia sido divulgada há seis meses.

Gerdau, Taurus, Zaffari e Marcopolo voltam ao debate

A votação mais importante foi sobre o financiamento da campanha, um tema bastante complexo que tem influência estratégica no desenvolvimento do PSOL. É nesse marco que o debate deve ser feito, pois, segundo a própria deputada Luciana Genro o “financiamento de campanha é a corrupção-mãe” (Zero Hora, 26/7/2005).

Luciana e sua corrente política, o MES, na época do mensalão e da legalização do PSOL, eram bastante radicais contra o financiamento privado. Hoje em dia, a defesa das doações da patronal às suas campanhas eleitorais viraram resolução de conferência.

É importante definir o valor desta decisão política, pois ao contrário de 2008, na campanha de Luciana Genro para Prefeitura de Porto Alegre, a decisão de captar dinheiro privado foi executada pelo diretório municipal que é hegemonizado pelo MES. Hoje, essa decisão foi definida por uma conferência, que é uma instância superior.

Em 2008, a polêmica sobre o financiamento privado da candidatura do PSOL ocupou espaço nos debates entre os militantes e ativistas dos movimentos sociais. Os R$ 100 mil da siderúrgica multinacional Gerdau e outros quase R$ 60 mil divididos entre grandes empresas como a armamentista Taurus, a montadora Marcopolo, a rede de hipermercados e comércio Zaffari-Bourbon e a empresa de transportes Maxion demonstram o estágio de adaptação ao regime democrático-burguês em que este partido se encontra.

A questão do financiamento privado mudou de tom, forma e até de conteúdo neste episódio. O grande perigo passou a ser, segundo a direção do MES, os bancos e as empreiteiras. O atual presidente do PSOL-RS, Roberto Robaina, afirmou como justificativa, na época, que “em Porto Alegre, estamos em uma situação de disputa de massa para tentar ganhar (a eleição). Não é possível ser ingênuo. Para ser socialista, não precisa ser burro e rasgar dinheiro” (Terra, 30/8/2008). Segundo Robaina, a abertura ao capital privado está intimamente conectada à estratégia de disputar as massas para vencer as eleições.

PT já mostrou o resultado desta estratégia

É possível ser financiado pela patronal e ao mesmo tempo defender a sua extinção? Obviamente, não. A burguesia não rasga dinheiro e muito menos quer fortalecer qualquer ideia ou figura pública que defenda a rebelião social contra a propriedade privada.

O PT é o resultado do financiamento privado. Foi em meados da década de 1980 que o PT começou a receber apoio financeiro do empresariado. Em 1986, na campanha de Eduardo Suplicy ao governo do estado de São Paulo, iniciou a aproximação política através do empresário Lawrence Pih.

Na campanha presidencial de 1989, empresários se manifestaram em favor de Lula. Foi o caso de Oded Grajew, do setor de brinquedos. Em 1994, foi criado o Comitê de Empresários Lula Presidente, que tinha como tarefa combater o preconceito contra o candidato no meio empresarial. Foi desta forma, quase inofensiva que a independência política e financeira do Partido dos Trabalhadores chegou à situação atual.

Mas podemos dizer que o PSOL se enquadra nesta situação? Com certeza não, mas ao mesmo tempo podemos afirmar que os sinais de adaptação se fortalecem com a posição aprovada na conferência eleitoral no RS. Não é por acaso que o MES defendeu em seu programa de governo para prefeitura de Porto Alegre, como eixo principal, o combate o combate à corrupção, redução de 70% dos cargos de confiança e plebiscitos sobre temas polêmicos. Luciana não defendeu nem mesmo a estatização do transporte público, nenhuma medida que fosse contra a propriedade privada e de ruptura. Limitou-se à defesa de medidas de regulação, fiscalização e de combate à corrupção.

Além disso, Luciana teve de passar por uma grande transformação na forma de se vestir e no seu visual. Tudo isso para se apresentar como uma candidata viável. A coligação com o PV, partido burguês e base do governo Lula, também estava nessa estratégia. Se é verdade que este partido era pequeno na cidade e não contribuiu muito para a campanha do PSOL – como afirmavam os militantes do MES – por que motivo os levaria a um afastamento programático do PSTU e do PCB?
A política de aliança com o PV teve como base de sustentação uma sinalização estratégica e não tática. Não é por acaso que Luciana e o MES foram os principais articuladores do apoio do PSOL a Marina Silva (PV) como candidata a presidente.

Qual é a disputa política no PSOL?

Existe uma crise muito grande no interior do PSOL que foi aberta quando Heloisa Helena se recusou a ser candidata do partido nas eleições presidenciais deste ano. Formaram-se dois blocos políticos que estão travando uma batalha quase fratricida. Para se ter ideia do tamanho do fracionamento interno, o grupo político liderado pelo MES e Heloisa Helena retirou do ar o site nacional do partido de forma unilateral. Hoje, o PSOL conta com dois sites oficiais, um de cada bloco político. De um lado estão os apoiadores de Plínio de Arruda Sampaio e de Babá. De outro, os que apoiam Martiniano.

Mesmo que essa disputa não tenha chegado ao seu fim, deixará cicatrizes. O debate político sobre o programa de governo, financiamento de campanha e as tarefas políticas para o próximo período estão comprometidos. Não se sabe nitidamente os acordos e desacordos entre os blocos. A disputa está concentrada na questão da democracia interna e na figura pública que os representará nas eleições. Em outras palavras, a disputa é pela direção do partido de uma forma atravessada.

Aos valorosos militantes do PSOL que estão ombro a ombro nas lutas conosco, só nos resta reafirmar que a situação em que se encontra seu partido não é inédita na historia da esquerda. Muitos quadros abnegados que dedicaram suas vidas à causa socialista acabaram por se degenerar pela força do aparato do Estado burguês. Mais do que nunca, é necessário construir um partido independente da burguesia, que não aceite financiamento privado, com uma estratégia revolucionária, radicalmente democrático e socialista.

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