4 de ago de 2010

Jornal do Comércio | Quarta-feira, 04 de agosto 2010


Vera contesta o pagamento da dívida com a União
A candidata ao Senado do PSTU, Vera Guasso, defende que a dívida do Estado com a União não seja paga, por entender que o Rio Grande do Sul já quitou esse débito há muito tempo. Ela propõe uma auditoria nesses números. Também prega a extinção do fator previdenciário e é contra incentivos fiscais a grandes empresas. Se eleita, promete lutar pela redução da jornada de trabalho. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, opina sobre o pacto federativo e indica como pode atuar pelo Rio Grande do Sul no Congresso.

Jornal do Comércio - Qual sua avaliação da disputa ao Senado Federal?
Vera Guasso - São duas vagas, então as pessoas começaram a se antenar mais cedo, porque o normal é uma vaga a cada quatro anos. Vamos eleger dois candidatos ao Senado, é um momento rico para o debate político do País.
JC - Tendo em vista que o PSTU é um partido independente, sem coligações, o que poderá fazer para o Estado no Senado?
Vera - O PSTU tem uma independência grande porque tem um projeto de esquerda, em nível nacional e estadual, com o companheiro Zé Maria para a presidência e Julio Flores para governo do Estado. Nosso diferencial é que não fizemos coligação. Em 2006, formamos uma frente de esquerda com o P-Sol, por vontade e por programa - nossas candidaturas são programáticas. O que foi diferente em relação a 2006? O P-Sol passou a ter um programa rebaixado na nossa visão ao não falar dos principais problemas...
JC - Quais problemas?
Vera - Precisamos romper com a dívida pública e com os grandes setores - os banqueiros internacionais e até nacionais.
JC - Qual sua posição sobre a revisão do pacto federativo?
Vera - Não somos a favor da revisão, somos pela suspensão do pagamento, porque a dívida já foi paga. Em 1990, a dívida do Estado era de R$ 30 bilhões e hoje é de R$ 39 bilhões. Então, são juros altos, há um problema da federação. Em 1998 deu aquela crise enorme, e Minas Gerais suspendeu o pagamento. Temos que romper com esse pagamento (dívida do Estado com a União). Falta dinheiro para saúde, educação, segurança, os problemas da população. O Estado paga essa dívida. E ao mesmo tempo tem subsídio para o empresariado, no caso, aqui, o da General Motors, no ano passado foi renovado.
JC - Como resolver a desigualdade na distribuição dos recursos entre estados, municípios e União?
Vera - Não bastam pequenas reformas ou discursos, tem que fazer uma auditoria sobre a dívida federal. Por que ninguém quer fazer? Porque poucos continuaram a questionar a dívida. Os grandes partidos chegaram ao governo, estão se beneficiando e estão do lado do poder econômico. Dívidas, cortar subsídios, discutir questão tributária: como os estados não vão ficar com maior parte do dinheiro para investir no serviço público?
JC - Por suas posições, o PSTU é tachado de radical.
Vera - Sempre traduzo essa questão de ser radical em ir na raiz dos problemas. Neste momento das eleições, "os candidatos desfilam e fazem centenas de promessas, e a situação continua a mesma". No final de 2008 e em 2009, as empresas foram socorridas pelo Estado - tanto o do Rio Grande do Sul quanto o brasileiro deram muitos empréstimos às empresas para não quebrar. E os trabalhadores quebraram, porque eles têm só um emprego. Se não tiver emprego, não tem como viver. Para nós, os problemas devem ser resolvidos na raiz. E aí é que está a questão, porque de um outro lado tem o radicalismo da direita tradicional e dos que se incorporaram ao projeto neoliberal. Para eles, funciona assim: "privatizemos o Estado" quando eles estão bem, agora, quando eles estão mal, "socialize-se o prejuízo deles". Se lutar contra isso é ser radical, somos radicais sim.
JC - Como materializar essa luta em resultados para os trabalhadores atuando no Senado?
Vera - Em primeiro lugar, temos que discutir o fator previdenciário. Essa é uma questão muito importante, a luta tem que ser retomada, (o presidente) Lula (PT) vetou. Então, essa é uma das bandeiras.
JC - Por quê?
Vera - O fator é uma legislação que faz com que o trabalhador, depois de se aposentar com 35 anos de serviço no caso do homem e com 30 anos para as mulheres, tenha uma redução drástica no benefício, dependendo da idade com que se aposenta. Nossa proposta é acabar com o fator previdenciário, criado pelo governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e mantido por Lula, que era compromissado em acabar com o fator previdenciário. Então, agora o fator não é só de FHC, é também Lula. Eles dizem que não acabam com o fator, porque quebraria a Previdência. Isso não é verdade. Tem um estudo que diz que o aumento da dívida pública a cada 1% de taxa Selic ampliada, daria para pagar um ano de fator previdenciário.
JC - E a redução da jornada de trabalho?
Vera - Tem projeto, mas o debate está parado. Será uma de nossas bandeiras para ampliar o emprego da população gaúcha que está desempregada e reduzir a jornada. Vamos também buscar condições de recursos para o lazer das pessoas. Grande parcela dos trabalhadores ainda trabalha 44 horas semanais. O Brasil tem o maior número de horas em jornada de trabalho e não há retorno em salário, além de se intensificarem os casos de doenças do trabalho.
JC - Que outras propostas destacaria?
Vera - Somos favoráveis à reestatização do setor de energia, privatizado no País no governo Fernando Henrique Cardoso. E da Vale do Rio Doce, que foi praticamente doada para o grande capital nacional e internacional.
Perfil
Vera Justina Guasso, 47 anos, é natural de Santiago (RS). Filha de pequenos agricultores, com 13 anos se mudou para Porto Alegre para estudar. Começou sua militância política no movimento estudantil e depois seguiu na atuação sindical. Participou do movimento Diretas Já e da campanha pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo. Sua primeira filiação partidária foi no PT nos anos 1980. Por divergências ideológicas, deixou o partido e se integrou à Frente Revolucionária, formada por várias correntes do PT e de outros partidos, dando origem, no início da década de 1990, ao PSTU. Trabalha no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) desde os anos 1980. Está licenciada do Serpro desde julho para concorrer ao Senado pelo PSTU neste ano. Antes já tinha disputado o Senado na eleição de 2006. Também concorreu a vereadora, deputada federal e estadual e à prefeitura de Porto Alegre em 2008. Técnica em informática, cursa a Faculdade de Pedagogia, na Ufrgs.


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