14 de jul de 2014

#NÃOVAITERCRÍTICA?


As diferenças políticas na esquerda não podem ser superadas senão (também) pelo modo das críticas e polêmicas. Esse é o método do movimento operário.
Por Chico da Silva

Há um debate em aberto na esquerda brasileira. Não é dos “grandes temas”, mas é um assunto muito importante. De uns tempos para cá, muitos ativistas e também algumas correntes políticas nos censuram por criticar aberta e permanentemente ideias e ações das quais não concordamos. Foi assim com a polêmica pública que fizemos com os Black Blocs e outros grupos anarquistas e também com várias correntes do PSOL. Genericamente, os militantes “anticrítica” tem duas posturas, muitas vezes combinadas: uns alegam que a crítica pública enfraquece e divide o movimento criando um ambiente fraticida, e com isso não contribuindo para a unidade da esquerda e da classe. Para outros, a crítica ajuda a repressão e faz coro a criminalização do movimento. Será?

A história do movimento dos trabalhadores é também uma história de críticas e diferenças públicas

Desde o início do movimento operário, diferentes correntes de pensamento se criticaram mutuamente. Era comum a elaboração de panfletos, artigos e até obras inteiras para criticar diferentes ideias e ações.

Em 1846 Proudhon, um dos precursores do anarquismo, não só fez a crítica à Marx, mas escreveu uma obra de dois tomos (a filosofia da miséria) para criticar as ideias econômicas de Marx. Em resposta, Marx escreveu um livro chamado “a miséria da filosofia” (1847). Outros exemplos são a “crítica ao programa de Gotha”, crítica de Marx ao grupo Lassalista e a brochura “do socialismo utópico ao socialismo científico” que entre outras coisas criticava os socialistas utópicos franceses. Não poucas vezes também, Marx, Engels e outros pensadores escreveram cartas e artigos de polêmicas inclusive a jornais “da ordem” (aqui entendidos como a imprensa não operária)[1].  

Tempos depois, Rosa Luxemburgo escreveu a obra “reforma ou revolução” contra Bernstein, e Lenin produziu “o estado e a revolução” contra Kautsky, Bernstein, Plekhânov e os anarquistas.

Trotsky também escreveria muitas obras, artigos e manifestos de polêmicas, muitas contra o stalinismo. Uma delas é a “revolução traída. O que é e para onde vai a URSS?”. Foi inclusive por sugestão de Trotski que Max Eastman publicaria o “testamento de Lenin” no New York Times. Com esse espírito, o primeiro texto escrito por Trotsky após ser expulso da URSS foram artigos de polêmica com o stalinismo publicados no New York Times e Daily Express[2].Por isso Stalin o acusou de “ter se vendido a burguesia mundial para conspirar contra a URSS”.

Pelo lado dos anarquistas, Mikhail Bakunin não deixou por menos e em 1882 após ser expulso da I Internacional fez um ensaio – “A Associação Internacional dos Trabalhadores e Karl Marx[3]” (em tradução livre) – com duríssimas críticas à Marx e ao Conselho Geral. Outro grande anarquista, Nestor Makhno escreveu inúmeros artigos e manifestos de polêmicas públicas com os comunistas. Em um deles – “Para todos os camponeses e trabalhadores da Ucrânia[4]” (em tradução livre) – escrito durante o levante por ele liderado contra o governo soviético, ele pede que o manifesto seja transmitido por telefone, telégrafo, enviado por correio ou lido em assembleias de fábricas, vilas, etc. Não tenhamos dúvida que se fosse nos dias de hoje, e pudesse, Makhno usaria do facebook e todos os meios disponíveis.

Errico Malatesta, anarquista italiano, escreveu a brochura amplamente difundida “Os bandidos trágicos[5]” (em tradução livre) em que criticava abertamente as ações terroristas de grupos que se denominavam anarquistas e manchavam com isso a tradição do movimento anarquista. Anos mais tarde, polemizaria publicamente com seu amigo anarquista Kropotkin sobre a posição dele em relação a I Guerra Mundial. Cem anos depois (em janeiro desse ano) um operário uruguaio (membro da Organización Socialista Libertaria e responsável pela publicação Rojo y Negro) em entrevista para o El País – maior jornal do Uruguai, criticou as ações de quebrar bancos e vidraças por parte dos “camaradas anarquistas”[6]: “Es contraproducente; permite seguir estigmatizando al anarquismo como algo que no es. Nos aísla del sentir popular (...) tampoco eso define nada: una vidriera más, una menos”.

Aqui no Brasil não foi diferente. Já em 1922 o jornal anarquista “a plebe” fazia duríssimas críticas ao bolchevismo e ao Estado Soviético[7]. Depois, profundamente contaminado pelas práticas stalinistas (e seguindo a risca as calúnias, falsificações e perseguição aos trotskistas), durante todo o período de auge do PCB, que segundo Mário Magalhães[8] chegou a ter 140 jornalistas na redação de seu órgão de imprensa da direção nacional, usou de todo seu aparato para demolir ideias opositoras – externas e internas.

Mesmo durante a ditadura militar e com toda a repressão, as correntes guerrilheiras travavam entre si batalhas políticas gigantes. Havia também outros grupos que mesmo sob os anos de chumbo não absolveram outras correntes de crítica. O grupo Ponto de Partida (que mais tarde daria origem à Convergência Socialista e então ao PSTU) teve como primeiro manifesto público (1971) o documento “a propósito de um sequestro[9]” em que criticava a guerrilha e o sequestro do embaixador Elbrick. E assim se seguiu como prática comum no movimento operário e sindical até os dias de hoje.

A crítica enfraquece a unidade da esquerda?

A disputa política e a polêmica entre as diferentes correntes e tradições é própria da esquerda. As correntes de esquerda batalham entre si para convencer umas às outras, mas principalmente a classe trabalhadora da justeza de suas posições e o equívoco das posições de outras correntes. Nós não devemos ter receio algum de apresentar nossas diferenças perante a classe trabalhadora. O tempo e a própria classe serão os juízes. Se erramos, digamos que erramos. A prática da esquerda tem de ser a de sinceridade total com os trabalhadores, não há o que esconder.

Porém, aqueles que batalham para que não haja crítica na verdade batalham pela abstenção política e o espontaneísmo. Isso é uma forma de suicídio político e avesso a necessidade do movimento se tornar cada vez mais consciente, organizado e politizado. E depois, na medida em que as ideias revolucionárias contagiarem a mente e o coração em escala de milhares será impossível reduzir os debater a círculos fechados e as polêmicas estarão na boca do povo e expostas nos veículos de imprensa operária, mas inevitavelmente também da imprensa burguesa.

Pelo contrário, o debate público – se feito sem abandonar a moral revolucionária – só pode fortalecer o movimento. Ao favorecer a atividade política como um todo, favorece a superação de ideias e põe à prova a todo momento as diferentes posições, empurrando o movimento operário a tirar conclusões (“sínteses”).

A importância da escrita na polêmica

Alguns ativistas alegam que as polêmicas deveriam ser feitas apenas nos espaços de assembleias ou fóruns do movimento. Isso não é uma questão de princípio. É uma questão de momento, de tática e conveniência. Podemos por vezes optar por limitar a crítica aos fóruns do movimento, mas não há problema algum se decidirmos recorrer (e na imensa maioria das vezes o faremos) politicamente ao conjunto da classe e não só aos grupos de vanguarda.

Depois, pelas características próprias de uma reunião, plenária ou assembleia, limitar as críticas a esses espaços necessariamente limitaria a intensidade e a profundidade da crítica. Seria possível Marx apresentar todas as suas diferenças com Proudhon numa reunião do Conselho Geral da I Internacional? Não, claro que não. Podem ser ações combinadas, dentro e fora, mas uma não supre automaticamente a outra.

Além do mais, a escrita possui um atributo que a fala não possui: ela está mais sujeita a verificação “histórica”. As testemunhas oculares e outras evidências são mais perecíveis se não registradas de forma escrita. E a verificação histórica é muito importante para provar a coerência, constância, erros e acertos das correntes e indivíduos. Isso proporciona fazer balanços e análises, corrigir os erros e apontar novos rumos. Por exemplo, em janeiro de 1964, já na iminência do Golpe, o PCB através de uma entrevista de Luiz Carlos Prestes para a tv, afirmou que João Goulart era o “chefe da revolução brasileira”[10]. Nem 3 meses depois com a total covardia do “general revolucionário”, a história (e a classe trabalhadora) cobrou seu preço e o PCB nunca mais se reergueu.

A crítica fortalece a repressão?

Como exceção e apenas em momentos históricos raros, há situações, fatos e (eventualmente) pessoas, que se tornadas públicas de fato podem comprometer a esquerda e favorecer a repressão. Por isso Trotski lacrou um setor dos seus arquivos para que fossem abertos apenas 40 anos depois[11]. A situação da II Guerra Mundial poderia comprometer muitos de seus correspondentes. Por isso sob a forte repressão que estamos vivendo no país não saímos divulgando a lista de todos os presentes na última assembleia ou plenária do movimento. Só para dar dois exemplos. Mas isso não pode ser esticado ao debate político, às diferenças de tática, ação, programa e estratégia, pois é da natureza da atividade política revolucionária o confronto de ideias e opiniões. 

Sem dúvida, as polêmicas contra as ações dos Black Blocs ajudaram a isolá-los perante a opinião pública. Mas ainda somos muito pequenos para que nossa posição seja decisiva para influenciar a opinião do conjunto da classe. De qualquer forma, os “anticrítica” – conscientemente ou não – querem colocar pedaços da esquerda em redomas de vidro, criando setores intocáveis e inatacáveis. Impossível camaradas! Sobretudo quando a ação de um pedaço da esquerda gera implicações de forma tão decisiva ao conjunto da esquerda. Dizer que tais ações são inadequadas não favorece a repressão, mas ajuda a construir um polo de resistência e crítica às ações que não compactuamos. Faríamos a mesma coisa caso algum grupo se lançasse na guerrilha. E fizemos durante todo o giro a direita do PT polêmicas sem precedentes com o que era a mais importante organização de esquerda no Brasil.  

O stalinismo, a crítica e a moral revolucionária[12]

Dentro da necessária e natural crítica mútua dentro da esquerda, o que não é aceitável é o método de calúnias. É porém o que, infelizmente, muitos dos “anticríticos” fazem de forma permanente quando por exemplo nos chamam de P2TU (“P2”: policiais infiltrados).

Calúnia é a mentira deliberada para desqualificar e destruir os adversários políticos. Isso é terrível não só porque confunde os trabalhadores, mas porque dissemina a desconfiança dentro do movimento, leva os trabalhadores a desconfiar de suas próprias organizações e em última instância de suas próprias forças. O propagandista nazista Goebbels estava correto ao afirmar que “uma mentira repetida mil vezes transforma-se em verdade” e ao orientar “minta que alguma coisa sempre ficará”. 

Mas foi o stalinismo que inaugurou o método de calúnias, mentiras e falsificações como regra na disputa política. Ao apresentar suas diferenças políticas e teóricas com outras correntes, caiu na moral do “vale tudo” e tratou sempre de desqualificar o próprio debate, caindo numa discussão superficial de intrigas.

Aqui há uma diferença importante entre a calúnia e a polêmica: “(...) [os] debates inclusive podem ser duros e, em seu curso, pode-se qualificar uma política ou um setor de ‘oportunista’, ‘sectário’, ‘ultraesquerdista’, ’burocrático’, etc. Esses são qualificativos políticos que não afetam e nem deixam dúvidas sobre a moral de quem defende tais políticas. Outra coisa completamente diferente são as acusações sem provas de que determinada posição é levantada por que tal pessoa ou corrente é ‘agente da patronal’, ‘é pago pelo Estado burguês’, ou ‘é agente do imperialismo’”[13].

Na certeza de que já cometemos e voltaremos a cometer vários erros e excessos, as diferenças políticas na esquerda não podem ser superadas senão (também) pelo modo das críticas e polêmicas. Esse é o método do movimento operário.

Ao debate camaradas, só a partir dele poderemos tirar lições e aprender com os erros! Estimulemos ao máximo a exposição de críticas e diferenças (sobretudo as mais importantes, estratégicas e programáticas) entre nós. Isso não é senão intensificar a atividade política e o exercício de reflexão do movimento operário, condição para vencer!   





[1] MEHRING, Franz. Karl Marx, a história de sua vida. São Paulo: Editora Sundermann, 2013.
[2] DEUTSCHER, Isaac. Trotsky, o profeta banido. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.pp 29
[8] MAGALHÃES, Mário. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo:Companhia das Letras, 2012.pp 159
[10] MAGALHÃES, Mário. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo:Companhia das Letras, 2012. pp 292.
[11] DEUTSCHER, Isaac. Trotsky, o profeta banido. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.pp 18 e ss.
[12] Muitas consultas no texto da LIT QI “as calúnias e a moral revolucionária”. Ver mais em https://www.archivoleontrotsky.org/download.php?mfn=13064