5 de mar de 2015

MULHER OPERÁRIA, INFECÇÃO URINÁRIA



A história de um aborto provocado pelo patrão

Por Chico da Silva, metalúrgico

Daniela tem 24 anos e é metalúrgica de uma grande empresa da Região Metropolitana de Porto Alegre que fabrica peças e equipamentos para a General Motors em Gravataí.

Grávida de 4 meses, perdeu o bebê como conseqüência de uma aguda infecção urinária causada por segurar o xixi às vezes uma manhã inteira. O RH da empresa, formado somente por mulheres, disse ao companheiro de Daniela que ela poderia faltar 2 dias: “Sem problemas, nós não vamos descontar os dias”. O artigo 395 das leis do trabalho prevê duas semanas de repouso remunerado em caso de aborto.

Na empresa que Daniela trabalha o ritmo de produção é dado pela velocidade das esteiras. Para que alguma operária ou operário saia para ir ao banheiro ou tomar água, é preciso que outra dobre o trabalho para não ser alcançado pela esteira. Isso significa, na prática, uma brutal pressão para que o operário não realize as mais básicas necessidades humanas como fazer cocô, urinar ou beber água.

Para os homens isso tem um peso. Para as mulheres um peso maior. E para as mulheres grávidas é pesado demais. As mulheres grávidas tem sua bexiga pressionada pelo crescimento do feto e isso as obriga a ir ao banheiro mais vezes.

Mas como no capitalismo o que importa é o lucro, e dentro da fábrica a produção, nenhum chefe se importa com a saúde dos operários. No caso das mulheres isso é agravado pelo machismo que faz com que até mesmo os colegas digam que a mulher tá indo no banheiro “pra matar tempo” ou “porque é escorada”.

Aviso aos homens operários: Os patrões são quem colocam essas ideias na nossa cabeça, e nós temos que ser contra isso!

Quando o patrão não respeita as necessidades físicas mais básicas de uma operária grávida, ele tem muito lucro com isso, porque daí não é preciso contratar mais um peão para ajudar na produção. A mulher, mesmo arriscando sua saúde e a do bebê, leva nas costas mais essa sobrecarga e “dá conta do serviço”.

O caso de Daniela é só um exemplo da epidemia de infecção urinária das mulheres nas fábricas no país. Segundo o médico Dráuzio Varela, 80% das mulheres terão infecção urinária ao longo da vida. E uma pesquisa de 2007 da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia mostra que a infecção urinária é a terceira maior causa de aborto espontâneo no Brasil.

8 de março, dia internacional de luta da mulher

Os patrões estão nos atacando, exigindo que trabalhemos cada vez mais ganhando menos e com piores condições de trabalho. O governo está cortando direitos. Aumentou a luz, a gasolina, a comida e as passagem de ônibus. Querem jogar a crise no lombo da classe trabalhadora. Cada derrota que sofremos é paga pelo conjunto da classe, mas principalmente pelas mulheres porque o machismo é muito lucrativo pro patrão.

Próximo domingo é 8 de março, dia internacional de luta da mulher. Será um momento precioso para levantarmos bem alto a luta pelos direitos das mulheres operárias. Entre elas, o aumento da licença maternidade para 180 dias, a redução da jornada de trabalho para 30h para mulheres grávidas e uma implacável punição aos empresários culpados por aborto decorrente de infecção urinária. Precisamos exigir também do governo federal que invista 1% do PIB no combate à violência contra a mulher.

A gente sabe que os patrões não cumprem a lei e que é necessário fazer uma luta permanente para defender o que temos e para as coisas mudarem. Por isso, é preciso se juntar com as outras mulheres operárias ganhar a cabeça dos peão e enfrentar os patrões.

Com organização e luta podemos mudar tudo: a fábrica, as nossas condições de trabalho e toda a sociedade. O exemplo de Daniela deve servir para transformar a dor em indignação.
Vamos lá, o nosso sofrimento tem que acabar!

Um comentário :

  1. Isto é uma vergonha para RS mas tambem para td o Brasil que faz nada para melhorar as condiçaoes de trabalho dessas mulheres , e que deixa os donos dessas firmas numa impunidade incrivél .

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