16 de mar de 2010

Vitória na UFRGS: estudantes e trabalhadores impediram votação sobre Parque Tecnológico

Por Jessica Nucci, Lider estudantil da UFRGS

No dia 5 de março, a reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) amanheceu sob a vigília de mais de 150 estudantes e militantes de diversos movimentos sociais. O objetivo da mobilização era impedir a realização do Conselho Universitário que, naquele último dia útil de férias letivas, tinha como pauta a apreciação do Projeto de Parque Tecnológico da UFRGS, o chamado UFRGS-Tec. O resultado foi uma grande vitória da mobilização, que organizou piquete em todas as seis entradas do prédio da reitoria, paralisando as atividades neste dia.


Os estudantes e movimentos questionavam o conteúdo do projeto e a forma como a Reitoria buscou aprová-lo, no apagar das luzes de 2009, e, sem sucesso, no período de férias para evitar mobilização. Isso revela o caráter antidemocrático que tem o funcionamento da instituição, que além de diferenciar consideravelmente o peso entre os professores (70% do peso nos votos) e os outros dois setores, estudantes e servidores técnico-administrativos (cada um com 15% do peso dos votos), ainda arranja inúmeras maneiras de driblar a participação seja nos próprios conselhos, seja na mobilização direta.

O projeto de Parque Tecnológico da UFRGS consiste na construção de uma grande área pública destinada à incubação de empresas que tenham interesse em desenvolver pesquisas no ramo da ciência e tecnologia de ponta, contando para isso com a mão-de-obra barata de estudantes. Toda gerência do espaço estaria em mãos de uma associação de patrões e mandados da reitoria. Além disso, o parque está previsto para ser construído em área reservada, ainda não dispondo de licença ambiental para isso, e obrigará a desocupação de famílias que habitam o local.

A reitoria sob a orientação do governo Lula

Parques como esse estão previstos na Lei de Inovação Tecnológica nº 10973, aprovada em Dezembro de 2004 pelo presidente Lula e seu governo. Em suma, é a abertura das universidades para a iniciativa privada, coisa que já acontecia desde o início dos anos noventa com o avanço das privatizações no país, mas que, no governo Lula, aprofundou-se de uma forma que nem FHC poderia fazê-lo. Através do ProUni, ReUni e outras series de medidas governamentais no âmbito da educação, Lula extrai bandeiras históricas do movimento estudantil e dos trabalhadores, como a questão do acesso ao ensino superior, por exemplo, e faz grandes ataques passarem como se fossem vitórias. Na prática, trabalha sob os ditames dos órgãos internacionais de financiamento, FMI e Banco Mundial que pensam, arquitetam e impõem a lógica do imperialismo para o trabalho, saúde, educação etc.

No caso da Lei de Inovação Tecnológica, junto com outros projetos e entendendo a reforma universitária como um todo, é a materialização de qual deve ser a função das universidades de um país subdesenvolvido ou emergente, como o nosso: as universidades públicas devem ser grandes escolões de ensino para formar mão-de-obra barata e qualificada. Toda a produção de conhecimento, ciência e tecnologia gerada no Brasil deve ser voltada para os fins do mercado, para os interesses das multinacionais e com o pleno controle da burguesia sobre o que é desenvolvido aqui.

Ao contrário do discurso do governo, qualquer inovação tecnológica produzida em nosso país, nestes moldes, sob o domínio da classe burguesa, não proporcionará uma maior soberania, mas sim aprofundará nossa submissão, pois será, invariavelmente, utilizada para refinar nossa própria exploração.

Educação de qualidade voltada para a melhoria de vida da classe trabalhadora

Os estudantes, trabalhadores e trabalhadoras em luta, mostram, na prática, como se luta pelo desenvolvimento do país, pela real soberania. É nas greves, ocupações de reitoria, vigílias e outros tantos atos que manifestem o descontentamento com qualquer imposição ou plano velada ou descaradamente prejudicial aos nossos direitos.

Lutar pelo desenvolvimento do país significa lutar pela melhoria de vida dos trabalhadores, arrancar, nem que seja à força, os direitos e as vitórias das mãos das reitorias, governos e burguesia.

É preciso organizar a luta e derrotar os planos do governo para a educação. Conquistar democracia para que tenha, de fato, igualdade de direitos nas decisões da universidade. Lutar para que haja investimento público de verdade, de no mínimo 10% do PIB para termos uma educação decente, que tenha incentivo e investimento público para o desenvolvimento de pesquisas necessárias para elevar o nível de vida da nossa população, pesquisas que tenham responsabilidade com a preservação da nossa saúde e do meio ambiente, integridade e dignidade da classe trabalhadora.

A luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade está nos marcos da luta de classes. As universidades cumprem uma função essencial de produção de ciência e tecnologia, e o exercício desta função deve ser em sintonia com as necessidades dos trabalhadores do campo e da cidade e não da burguesia nacional ou imperialista.

Uma aliança que tem futuro

Uma educação que esteja a serviço dos trabalhadores só pode ser conquistada com a aliança entre os estudantes e a classe trabalhadora. Aliança esta que deve ser desenvolvida e fomentada em cada momento de luta, com solidariedade mútua nas greves, piquetes, ocupações e todo tipo de mobilização. A luta do movimento estudantil tem de ser a mesma dos trabalhadores, a luta pela emancipação da sociedade e a construção do socialismo.

A vitória dos estudantes da UFRGS só foi possível através da unidade com os trabalhadores organizados e solidarizados com a pauta, pois sabiam que esta pauta também era sua. Os trabalhadores do campo, ligados à Via Campesina e MST entendiam, e entendem, que a construção do parque é um prato cheio para o agronegócio do Rio Grande do Sul e que trará ainda mais desigualdades no campo; os estudantes em luta não querem ser mão-de-obra barata para estes fins. O movimento sindical presente com a Conlutas e a Intersindical, também tomou esta bandeira e garantiu a vitória sobre o reitor e as empresas interessadas em entrar na universidade.

Esta unidade precisa se aprofundar, se desenvolver e massificar. Para conquistar, de fato, a vitória dos nossos interesses, pelo menos no que diz respeito ao Parque Tecnológico da UFRGS, é preciso não só derrotar o reitor, mas todo o plano educacional de Lula e do imperialismo. Para tanto, a unidade entre estudantes e trabalhadores do campo e da cidade é fundamental.

Nenhuma confiança na reitoria, que pode tentar uma saída negociada e enfiar todo o movimento numa sinuca de bico. Nenhuma confiança no governo Lula, que é o principal canal de controle do imperialismo sobre nosso país e é quem, de fato, orienta as ações da reitoria.

Demos provas do que podemos fazer unidos, agora é organizar a resistência pela base apostando nas mobilizações diretas. Com unidade, vencemos uma batalha e esperamos que esta vitória seja um ânimo a todos os lutadores e lutadoras que enfrentam os inimigos das diversas frentes do país.

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