21 de nov de 2012

Porto Alegre: campanha do PSOL é financiada pela burguesia mais uma vez



Matheus “Gordo” e Rodrigo “ Bocão”, de Porto Alegre (RS)
 


• Em meio à crise nacional aberta no PSOL a partir das políticas de alianças desastrosas efetuadas no Amapá (DEM, PTB e PSDB) e em Belém (apoio de Dilma, Lula, PDT), novamente o Diretório Municipal do PSOL de Porto Alegre, hegemonizado pela corrente Movimento Esquerda Socialista (MES), é o pivô de mais um capítulo do giro à direita do partido.

A prestação de contas dos candidatos divulgada na última semana pelo TRE-RS seguiu a mesma tendência da entregue ao final da campanha 2008. Para quem não lembra, há quatro anos o MES abriu uma crise interna no PSOL ao ser a primeira corrente que defendeu coligações para além do espectro da Frente de Esquerda (PSTU-PCB) se aliando ao PV e aceitando receber dinheiro da burguesia. Naquele ano, as campanhas de Luciana Genro, Pedro Ruas e Fernanda Melchionna foram financiadas com dinheiro da siderúrgica Gerdau, das metalúrgicas Taurus e Marcopolo, além do Zaffari, num valor aproximado de R$ 160 mil.

PSOL e Zaffari, uma relação para além das eleições
Desta vez, o principal apoiador da sua campanha foi a rede Zaffari, que contribuiu com R$ 100 mil para os candidatos do PSOL. O grupo representa a quinta maior rede de supermercados do Brasil e a primeira do estado, tendo recentemente expandido seus negócios para São Paulo. Além disso, a rede é proprietária de sete shoppings centers e no início de 2012 iniciou um negócio milionário com o empresário Jorge Gerdau Johannpeter, para ingressar no ramo hoteleiro. Somente em 2011, o faturamento do grupo chegou a R$ 2,9 bilhões, à custa de muita exploração dos jovens que trabalham nos seus estabelecimentos de domingo a domingo, submetidos a um regime de trabalho instável, com alta rotatividade e com relações trabalhistas precarizadas.

O Zaffari também é conhecido por utilizar o slogan “economizar é comprar bem” e parece ter levado a sério essa máxima durante os processos eleitorais. Em 2006, gastou mais de R$ 1 milhão, com doações para partidos de diversos matizes. Em 2008, repetiu a cifra da eleição anterior. Já em 2010, foram quase R$ 2 milhões, distribuídos em diversos locais do estado. Nesse ano, a rede fez doações para nada mais nada menos que 17 dos 36 candidatos eleitos para a Câmara de Vereadores. Isso inclui um leque muito amplo: do PMDB ao PDT, do PSDB ao PP, do PT ao PC do B e por aí vai. Infelizmente, o MES resolveu incluir o PSOL na partilha.

O mais triste é que não nos espanta a relação entre o MES/PSOL e a Rede Zaffari. O partido já havia aceitado contribuições em 2008 e 2010, além de manter relação estreita com o grupo na parceira do Emancipa, onde eles são os maiores financiadores do pré-vestibular organizado pela ex-deputada Luciana Genro. Esse projeto, apesar de ter um verniz popular, é em essência uma parceria pública privada (PPP), política que é diariamente combatida pelos ativistas de esquerda, principalmente os servidores da educação em nosso estado, que sofrem com as parcerias de Tarso com a Fundação Bradesco e Unibanco. Além disso, esta lógica caminha na contramão do movimento estudantil, que em 2012 lutou de forma independente por cotas e um programa que vise à universalização do acesso ao vestibular, além de combater a entrada do capital privado nas IFES.

Novamente o MES/PSOL abandona a independência de classe
O PSOL em Porto Alegre conseguiu manter seus dois vereadores, mas ao financiar as suas candidaturas com o auxílio dos nossos inimigos de classe manchou a campanha de Pedro Ruas e Fernanda Melchionna. Na atual luta política interna, o MES está combatendo as alianças em Macapá e Belém, se localizando no campo da esquerda do PSOL para se postular como alternativa frente à crise do partido. Mas, o histórico dessa corrente nos faz afirmar: o que mudou foram apenas os atores centrais do processo de direitização. Uma corrente que defende o financiamento pela burguesia da sua campanha seria capaz de dirigir uma luta política em defesa de um PSOL de esquerda? Nossa opinião é que não.

Ambos defendem a flexibilização da política de alianças, financiamento da burguesia e durante as eleições apresentaram um programa reformista para as cidades. Apesar de ter adotado um verniz aparentemente mais radical para sua candidatura em 2012, aqueles que esperavam uma autocrítica do MES com relação a sua linha em 2008 (aliança com o PV) e em 2010 (quando chamou voto no PT para o senado), se deram muito mal. Em entrevista ao Portal Sul 21 (23/08/2012), Robaina disse o seguinte: “Já fizemos uma aliança muito boa com o Partido Verde (PV) também. Fazer aliança significa um esforço para ver as razões de se aliar. Esforço no sentido de buscar com quem se se aliar para governar” . Ou seja, o MES continua achando que o PV de Zequinha Sarney é um aliado em potencial para governar Porto Alegre e quiçá o Brasil.

A conclusão que podemos extrair dessa declaração é que não há discordância estratégica com as posturas de Clécio, Randolphe e Edmilson e que estes são aliados do MES na transformação do PSOL em um partido eleitoral, de estilo social-democrata clássico. Para além de sua retórica socialista, o MES defende que o partido se ordene por um programa amplo, que consiga dialogar ao mesmo tempo com trabalhadores e patrões. Dessa forma, busca aproveitar o espaço aberto pela direitização extrema do PT e PC do B em favor de um partido eleitoral, localizado à esquerda de ambos, que mantém algumas bandeiras sociais abandonadas por esses partidos, para atrair à juventude e setores da classe trabalhadora que rompem com essa velha esquerda.

A questão é que ao apresentar um programa de conciliação de classes aos setores que vão à esquerda da Frente Popular, o PSOL trilha o mesmo caminho que levou o PT a se tornar um partido de sustentação da ordem burguesa. Durante as eleições, a candidatura de Robaina teve como eixo central a defesa da “ética na política” e a exigência do corte de 70% dos Cargos de Confiança na Prefeitura. Ou seja, apresentam o partido enquanto alternativa de gerência para o sistema, fortalecendo a ilusão de que é possível construir uma nova política, “ficha limpa”, por dentro do capitalismo. Além disso, continuaram com posturas alheias às bandeiras históricas do movimento social, como a defesa do aumento do efetivo da Brigada Militar nas ruas da cidade. Vão ao mesmo caminho de Marcelo Freixo, que declarou que levaria em conta a possibilidade de cortar o ponto dos trabalhadores durante uma greve em seu governo.

O que significa uma campanha de esquerda classista e anti-capitalista?
Em nossa opinião, são dois os pilares para uma campanha com o perfil anti-capitalista e classista que ajuda a transformar a consciência dos trabalhadores. O primeiro é a defesa de um programa para as cidades que expresse, dialogando com os trabalhadores, um conjunto de medidas que parta dos problemas reais da população e faça uma ponte com a defesa de uma alternativa socialista e dos trabalhadores para a cidade. Isso significa que um programa socialista deve se traduzir em uma agenda de lutas para o movimento social de conjunto, utilizando o espaço aberto pelas eleições como um ponto de apoio a ação direta.

O segundo é a construção de uma campanha apoiada e financiada pelos trabalhadores. Temos um grande desafio que é enfrentar o PT, seus aliados reformistas e a burguesia, e para fazer avançar a consciência dos trabalhadores, é fundamental recuperar a perspectiva classista. Ou seja, precisamos provar que é sem dinheiro da burguesia e sem alianças com partidos burgueses e reformistas que fortaleceremos uma proposta de ruptura com o sistema capitalista. Isso é fazer valer o que Marx dizia no século XIX com a frase “a libertação dos trabalhadores, será obra dos próprios trabalhadores”. Infelizmente, não foi essa a política do PSOL, de norte a sul do Brasil.

Aprender com a adaptação do PT é não repetir o mesmo caminho
O combate à política de colaboração de classes do PT não pode acontecer com a repetição dos caminhos que este partido percorreu no passado, sob pena da desilusão de uma nova geração de ativistas. A lógica de eleger a qualquer custo, receber dinheiro da burguesia, ampliar as coligações e abandonar um programa classista e socialista varreu o PT, a partir das primeiras vitórias eleitorais no final da década de 80 e principalmente na década de 90, culminando na ascensão de Lula a presidência do Brasil em 2002. O resultado todos conhecemos: o PT cresceu como aparato eleitoral e em confiança da burguesia e abandonou por completo a luta em defesa da classe trabalhadora que foi a sua marca no seu surgimento.

O PSOL muito rapidamente começou a percorrer esse caminho. Essa adaptação programática está sendo levada a cabo pela maioria das correntes internas dessa organização como a APS, MES, MTL e os parlamentares do Rio. No último dia 8 de novembro em reunião da executiva do PSOL foi referendada pela maioria da direção à tática de coligações amplas votada no III Congresso do partido (2011) e as campanhas de Belém e Macapá como máximas expressões do acerto dessa política.

A crise do capitalismo a nível mundial e as revoluções no mundo árabe mostram cada vez mais a necessidade da construção de uma direção classista, socialista e internacionalista para enfrentar a crise do capitalismo, a burguesia internacional e as velhas direções reformistas dentro do movimento operário. No Brasil não é diferente. Um grande desafio é construir uma alternativa socialista e de esquerda diante da falência do PT. O PSOL está na contra mão disso.

A frente política PSTU/CS tem um programa para construir uma verdadeira alternativa de esquerda. Não aceitamos dinheiro da burguesia nas campanhas eleitorais, defendemos um programa classista e socialista e um perfil político de oposição de esquerda aos governos. Nossa intervenção cotidiana acontece nas lutas dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre por melhores condições de vida. Essa é a nossa trincheira e o socialismo a nossa bandeira.

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Deixe sua opinião! O PSTU Gaúcho agradece sua participação.