9 de mai de 2014

Sheherazade e o jornalismo sensacionalista têm as mãos sujas de sangue


Incentivo a justiceiros demonstra como o jornalismo sensacionalista surfa na onda da insegurança e do medo para disseminar o ódio


Por Lucas Sena

A multidão enraivecida arrasta uma mulher acusada de magia negra e rapto de crianças. Ela é espancada até a morte. Esse não é um relato de um dos atos inquisitórios da Idade Média. Estamos em 2014 e trata-se de um ato de barbárie ocorrido no Guarujá, litoral de São Paulo, Região Metropolitana da Baixada Santista, no último sábado, dia 3 de maio.

Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, mãe de duas filhas - uma de 13 e outra de apenas um ano - foi mais uma vítima de linchamento realizado por “justiceiros”. O motivo? Uma página no Facebook (Guarujá Alerta) propagou um boato e um tal retrato falado de uma suposta mulher que sequestrava crianças para a prática de “magia negra”. A Polícia Civil da região afirmou que o boato não teve qualquer fundamento e que nenhum registro de sequestro foi realizado.

Esse não é o único caso mais atual de uma pessoa espancada até a morte. No dia 8 de abril um jovem negro de 17 anos chamado Alailton Ferreira foi espancado numa cidade próxima a Vitória, no Espírito Santo. Ele morreu pouco depois de chegar ao hospital. Alguns acusavam o jovem de tentar estuprar uma mulher, outros de tentar roubar uma moto e outros por abusar de uma criança. Nenhuma denúncia, porém, foi realizada na delegacia sobre os casos.

Enfim, inúmeros linchamentos, que não tiveram a “notoriedade” de Fabiane e Alailton, ocorreram só este ano. A ação de “justiça” pelas próprias mãos é consequência da generalização da violência. Assistimos todos os dias assassinatos e torturas praticados pelo Estado, na maior parte das vezes, contra negros pobres e favelados.

Mais recentemente, uma apresentadora de TV se tornou um “ícone” desse método de “justiça”. Rachel Sheherazade emitiu um infeliz comentário sobre o episódio do jovem negro preso ao poste no aterro do Flamengo. Ela defendeu a ação dos justiceiros e agiu como tal, dizendo: “e aos defensores dos direitos humanos que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste eu lanço uma campanha: faça um favor ao Brasil adote um bandido”. Além de Sheherazade, existem diversos outros comunicadores e emissoras que surfam na onda da disseminação da insegurança e do medo, com o objetivo de manter alguns pontos a mais no ibope e, sem sombra de dúvida, estimulam o ódio aos mais pobres. Esses também têm as mãos sujas de sangue.

É evidente que os comentários reacionários dos apresentadores de TV, supostos “formadores de opinião”, não são a mola propulsora dos atos de violência ocorridos nos últimos tempos. No entanto, eles ajudam a contribuir na manutenção e acirramento dessa situação, mesmo não sendo o elemento determinante. O principal responsável por esses acontecimentos e que empurra a sociedade para a barbárie é o sistema econômico vigente. Mas todos aqueles que defendem a ações dos “justiceiros” representam o que existe de mais atrasado no desenvolvimento das superações sociais e na construção de uma sociedade mais igualitária e humana.

Rachel Sheherazade e esse “jornalismo” que defende bandeiras medievais só vê uma saída para resolução dos problemas sociais: violência policial e leis “mais rígidas” - obviamente contra pobres, negros e favelados. Afinal de contas, nunca se viu na TV ou em qualquer outro meio de comunicação alguém defender que se amarre nos postes os grandes empresários sonegadores de impostos ou os donos das construtoras que causam centenas de mortes de operários todos os anos nos canteiros de obras por falta de segurança. É curioso, mas aqueles que defendem menos Estado social são os mesmos que defendem mais Estado repressivo.